O ano é 1975, no Brasil, numa caverna chamada Lapa Vermelha, em Minas Gerais; quando dois pesquisadores, Annette Laming (francesa) e Walter Neves (brasileiro) encontraram uma mulher soterrada —Luzia—, fossilizada há cerca de 13 mil anos. Essa importante descoberta poderia ter mudado o olhar do mundo sobre a América do Sul mas, quase 50 anos se passaram e o impacto popular desse achado ainda é mínimo ou inexistente. O fato é que o fóssil humano mais antigo que temos em um Museu Nacional é de uma indígena de pele preta. Sim, os nossos primeiros indígenas eram de pele preta. As análises genéticas revelaram que os portugueses tinham razão: muitos nativos descritos em 1.500 se pareciam com os povos do subcontinente indiano. No entanto, a ciência mostrou que esses originários, apesar das similitudes físicas com povos da Índia —retintos, de cabelos escuros e fios lisos ou encaracolados —, eram mais próximos geneticamente dos nativos australianos. Isso também os diferencia do estereótipo indígena atual, que tem pele mais clara, cabelos lisos e olhos estreitos e elegantes.

Segundo a teoria migratória multirregional, os indígenas com características norte-asiáticas chegaram às Américas numa terceira onda migratória mais recente, há cerca de 4 mil anos. Foi nesse período que eles se encontraram com os descendentes de Luzia. Essa descoberta poderia ter bagunçado o que sabemos sobre a população brasileira atual, levantando questões como: a Bahia é realmente o lugar mais negro fora da África ou seria mais correto dizer que é o mais preto?

Concordamos que é fundamental para o povo conhecer suas origens, mas sabemos que há 500 anos vivemos um apagamento planejado, e talvez seja esse o motivo de não disseminarmos essa informação. Afinal, quem se interessaria por uma história que revela que povos do sertão possuem uma ancestralidade de 12.500 anos, muito mais antiga do que a história que conhecemos hoje?

Seria muito perigoso dar esse poder ao povo, vai que ele acorde!

Olá, eu sou Thaïs Zakï Tembo e, a partir desta edição, transcrevo para a Revista Philos alguns “Ensaios para Pindorama”, estudos que fazem parte da minha pesquisa na arte contemporânea. Eu sei, até aqui parece que estamos falando de ciência quando, na verdade, a ciência está vasculhando a nossa própria história e me ajudando a fazer arte.

Nesta edição, tornarei públicas algumas escrituras que exploram as fronteiras entre o Brasil e Pindorama, por isso decidi começar apresentando a mais antiga parente que temos, TATA LUZIA. Hoje fazem 10 anos desde o dia que a conheci no Rio de Janeiro, e desde então mantemos diálogos hipotéticos, em forma de áudio ou escritos, que se intensificaram após o incêndio do Museu Nacional em 2018, ocasiões em que quase perdemos essa importante testemunha geológica.

No início, pensei que me bastaria entender o motivo do nome dado a ela. Foi fácil notar a analogia entre Luzia e Lucy — famoso fóssil australopiteco encontrado na África. Confesso que senti um ruído ao ouvir nomes europeus ligados a corpos pretos, então, por respeito, decidi chamá-la de Tata LuziaLuz do Fogo em pindoramgues* ou Luz Ancestral em pretogues*. Assim, na intimidade, antes da imposição de um nome estrangeiro, ela carregará um nome indígena. Tata passou a ser o maior foco dos meus questionamentos, nutrindo perguntas como:

“Você sabia que os portugueses nunca chegaram ao Brasil? Nunca ao Brasil, mas sim a Pindorama!”

Quando os navios aportaram no que hoje é Bahia, a instituição parasitária atual sequer existia, a destruição massiva nunca havia sido imaginada em tamanhas proporções. Naquela época, esse era um continente muito bem habitado, no qual os povos concordavam em cuidar dessa terra como se cuidassem de uma mãe, por isso lhe deram nomes por empatia, carregados de sentimento e bons presságios! PINDORAMA – Terra Livre do Mal. Significado bem diferente do nome atual, vindo do primeiro desmatamento, fruto da ambição portuguesa.

No começo da destruição da mata atlântica, o invasor notou a cor vermelho-brasa no cerne dos troncos cortados por ele ao devastar milhares de Ibirapitangas, árvores que mais tarde foram renomeadas como Pau-Brasil. É tão falsa a nossa liberdade que ainda carregamos o nome da primeira agressão colonial às nossas florestas. Aceitamos ser Brasil, braseiro? E quem mantém essa fogueira acesa? Ainda são os herdeiros dos colonos que controlam o fogo? Ainda são os pretos, pardos e indígenas que continuam a ser consumidos e queimados por tantas violências? Já são 500 anos de história predatória, onde a continuidade colonial tenta apagar os vestígios Pindorâmicos, mas seu nome está sempre por aí e ecoa cada dia mais forte.

Tata Luzia, se você pudesse nos agraciar em voz alta com toda a sua sabedoria, eu certamente lhe perguntaria:

PINDORAMA é só um nome ou é uma profecia? Nos tornaremos uma TERRA LIVRE DO MAL algum dia?

Hoje, cinco séculos depois, ao notarmos o quão resistente é essa ancestralidade, espero que o sistema desista de tentar nos fazer crer que tudo sempre foi Brasil. Afinal, 524 anos nunca vão ser 13 mil. Agora que você já sabe quem foi o fio condutor dos Ensaios para Pindorama, continuaremos a aprofundar nesse tema nas próximas publicações da coluna. Vamos começar por: Quem é o Brasil e quem é Pindorama.

Te aguardo na próxima edição da Philos!

Thaís Zakï Tembo

Thaís Zakï Tembo (Senhor do Bonfim, Bahia, BA) é uma artista plástica e escritora autodidata, nascida em uma área de mineração ilegal no Centro-Norte da Bahia, onde o garimpo de esmeraldas ainda perpetua práticas análogas à escravidão em antigos territórios do povo Payaya. Atualmente, é mestranda na École Nationale Supérieure D’arts de Paris — Cergy, na França. Em seu trabalho, Thaís recicla resíduos da mineração para desenvolver um material escultural próprio, neutralizando os efeitos nocivos da poeira de Maracacheta. Sua prática aborda questões ambientais, sociais e raciais, especialmente na relação entre ser humano e natureza, expressa na dualidade entre água e exploração mineral, ou Brasil e Pindorama. Por meio de crônicas escritas, esculpidas ou pintadas, ela busca dialogar sobre a perfuração constante de aquíferos, processos que aceleram a extinção de espécies, incluindo a humana. Além disso, cria dispositivos que auxiliam no resgate de memórias e na formação de novos mitos. Suas investigações atravessam um território rico e ancestral, em confronto com uma realidade social que se distancia dos mais básicos direitos humanos e das devidas proteções ao meio ambiente.

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